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TEXTO VINCULADO NO PROGRAMA RAIANDO O DIA, NA RÁDIO LUZ DO SERTÃO FM, APRESENTADO POR ADAILTON LOPES

História -A origem do bode em Uauá – Revista o Berro 2002

A região de Uauá (BA) foi, desde o final do século XIX e início do século XX, um grande fornecedor de peles caprinas e ovinas para exportação. Entre todas, a pele das cabras brancas de Uauá faziam sucesso, pela tenacidade e elasticidade. Logo, essas peles começaram a receber um valor extra na cotação. Devido a isso, surgiram vários criadores do “tipo Uauá ”. Toda e qualquer cabra branca do noroeste baiano era cruzada com reprodutores da nova raça Uauá, aumen
tando o efetivo. As cabras Marota transformavam-se em Uauá”.
O legendário Delmiro Gouveia, de Alagoas, era um dos que compravam e exportavam as peles e sua fortuna teve como base as peles das cabras de Uauá, que eram levadas por imensas caravanas de burros pelas veredas empoeiradas do início do século XX.
Jerônimo Ribeiro, ex-prefeito e historiador de Uauá (BA), calcula que havia entre 5.000 e 10.000 criadores de cabras catingueiras, naqueles tempos. Era uma cidade próspera, tendo até banda de música própria e estabelecimentos para exportação de peles.
O próprio Octávio Domingues (1955) escreve que nos sertões de Canudos a ocorrência da Marota apresentava-se maior do que a da Moxotó. A história acabou registrando os nomes de Marota Curaçá e de Marota Uauá.
O desastre ecológico - Entre 1920 e 1945 aconteceu uma drenagem absurda na economia regional: mais de 1.000 caminhões de postes de aroeira e outras madeiras da caatinga foram levados para atender ferrovias e construções em geral, em várias regiões da Bahia. O Governo liquidava as caatingas de Uauá e nada pagava por isso. A poeira enchia os olhos da população que nunca tinha visto tantos caminhões! Era o início do final de uma época de esplendor.
Também em 1928, João Borges de Sá levou oito cabras e um macho Anglo-Nubiano para Uauá, importados e cedidos pelo Governo do Estado, tendo em vista aumentar o tamanho das cabras locais. Uma vez que o constante empobrecimento das caatingas reduzia o porte dos animais, supunha-se que o acertado seria aumentar o tamanho do animal. Por incompetência da Prefeitura, o programa foi extinto, mas este foi o início da disseminação de animais de orelhas alongadas na região.
Em 1936, só havia um único caminhão de transporte, na cidade, para levar as pessoas até Bonfim! As pessoas locomoviam-se a pé ou no lombo de burros. Uauá, portanto, continua sendo uma terra de cabras fortes e políticos fracos!
Uauá perdia-se na poeira dos tempos.
Devido à sucessão de secas, ao extermínio das madeiras nobres da caatinga, ao abandono político do sertão (décadas de 1940 e 1950), as cabras da raça Uauá foram relegadas à própria sorte. Os criadores, diante do quadro desolador, em que as cabras reduziam o porte, devido à caatinga agora empobrecida, trataram de injetar sangue de raças maiores, principalmente da Anglo-Nubiana , de uma vez por todas. Isso decretou o quase extermínio da raça Uauá e da raça Curaçá. Hoje, encontram-se exemplares que poderiam reiniciar o processo de produção de peles de alta qualidade para a indústria de curtumes, mas parece não haver interesse momentâneo para isso. Os governantes nordestinos ainda não acordaram para a potencialidade da caprino-ovinocultura, com poucas exceções
Os mestiços de orelhas alongadas recebiam o nome de “ Braiadas ” (significando “embaralhadas”, ou misturadas, ou mestiças). Esse grupamento, ou ecótipo, acabaria sendo formado também em outros Estados, como Ceará, Paraíba e Pernambuco e estaria presente até em Minas Gerais, quase sempre selecionados para leite. Devido a tamanha abrangência, esse ecótipo passou a ser denominado de raça Tropicana , com animais de boa aptidão leiteira e porte mediana. .
Em 1948, quando Jerônimo Ribeiro era o prefeito, surgiu o nome de “ Uauá: a capital do bode” - que permanece até hoje, para relembrar os velhos tempos. Mesmo não havendo mais o brilhantismo de outrora, a cidade inteira continua voltada para o bode: feiras, restaurantes, lojas, logradouros públicos, etc. A cidade de Uauá, mesmo hoje, não existiria sem o bode!
O Governo baiano pouco se importava com caprinocultura e foi preciso muita luta para que, em 1971, pudesse ser realizada a Primeira Exposição Especializada de Caprinos e Ovinos da Bahia. Em Uauá, claro! Com certeza, foi a primeira exposição especializada do Brasil! Depois disso, muitas cidades nordestinas ganharam força e começaram a realizar exposições próprias. A caprino-ovinocultura começava a ganhar terreno. Nessa exposição de 1971, no entanto, os criadores passaram a conhecer raças exóticas e, então, decisivamente, o pioramento das cabras sertanejas de Uauá tornou-se muito mais óbvio.
Futuro - Modernamente, continuam saindo dezenas de caminhões lotados de cabras “ Braiadas ” para São Paulo, Minas e outros Estados, todos os meses. Os animais de orelhas pequenas e levantadas vão ficando raros, abandonados nas caatingas, recebendo a centenária alcunha de “Pé-Duro ”. Uauá mergulhou no primitivismo, misturando as cabras pretas, a Marota , a Calindé ou Lavandeira , a Raposa , a Tauá , a Biritinga , etc. – sem qualquer perspectiva de progresso futuro.
Uma coisa, no entanto, é certa: Uauá nunca teve outra fonte de renda - e continua assim. A Capital do Bode bem que merece uma sorte melhor.
 
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Postador Robério Gomes

Adailton Santana. Locutor, radialista e blogueiro.
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